Mais semelhantes do que pensamos: quando os animais ficam loucos

Por Laurel Braitman via TED

featuredimage_animalmadness_notype

Um golden retriever persegue o próprio rabo toda manhã por horas a fio. A tarde, ele lambe as patas compulsivamente até formar feridas. Quando toma Prozac, ele se acalma e para de se mutilar… Depois da morte de seu parceiro, uma arara começou a arrancar as próprias penas e não parou até fazer amizade com uma cacatua… Um gato tigrado ficou apático e parou de comer quando seu amigo humano foi para a faculdade, e continuou até a chegada de um novo pet, um coelho que o gato segue pela casa toda.

Esse cachorro é obsessivo compulsivo? A arara tem tricotilomania? O gato teve depressão e se recuperou?

Tentar entender as emoções e comportamentos dos animais, especialmente quando se tratam de atitudes fora do normal, sempre envolveu um pouco de crítica por antropomorfismo. Os diagnósticos que muitos animais recebem refletem temas da saúde mental humana, já que as pessoas usam conceitos, linguagens e diagnósticos usados humanos para tentar entender os animais ao redor delas.

Isso não quer dizer que eles não estejam sofrendo, mas que os rótulos que damos ao sofrimento deles refletem não só nossa crença acerca da capacidade emocional do animais, mas também nossas próprias idéias acerca de doenças mentais e recuperação. O que, por exemplo, era considerado loucura no passado, hoje é diagnosticado pelos veterinários e médicos como ansiedade, comportamentos compulsivos e obsessivos tanto em humanos quanto em cachorros, gorilas, baleias e muitos mamíferos entre eles.

Observar casos de suposta loucura animal é como olhar num espelho da história da loucura humana. Não é agradável – mas é sempre interessante. Aqui estão cinco exemplos clássicos de insanidade animal, diagnosticados pela criatura mais insana de todas, o ser humano:

 

  1. Luto

No século 20, o luto era considerado um problema médico de risco letal que afeta tanto animais quanto humanos, desde casos em que a noiva entrou em choque por ser largada no altar até cachorros que morreram logo após a morte de seus parceiros humanos. Em 1937, um pastor alemão chamado Teddy parou de comer quando seu amigo cavalo morreu, ele ficou inerte na baia do cavalo por três dias até que morresse também. Esses casos ainda aparecem de tempos em tempos. Em 2010, dois lontra machos que viveram juntos por 15 anos morreram com uma hora de intervalo num zoológico da Nova Zelândia. Apenas um deles estava doente, os tratadores consideraram que o segundo morreu de desgosto. Em março de 2011, outra história de luto ganhou atenção da mídia. Um soldado britânico, Lance Corporal Tasker, foi morto em um conflito armado em Helmand, Afeganistão. Seu cachorro, Theo, um mestiço de springer spaniel treinado para farejar explosivos, presenciou a coisa toda. Theo não se machucou no combate, mas algumas horas após a morte do seu amigo humano, ele sofreu uma convulsão letal, causada, segundo as testemunhas, por stress e tristeza pela perda do companheiro.

 

  1. Insanidade

Foi só em 1885, quando Louis Pasteur conseguiu imunizar um primeiro paciente contra a raiva, que as pessoas entenderam que a doença era contagiosa. Antes de Pasteur, os sintomas da raiva eram considerados uma forma de insanidade que podia ser passada entre pessoas e animais. Como e porque os animais enlouqueciam de verdade era um assunto confuso. Eles podiam ficar loucos após uma vida inteira de abusos, como aconteceu com Smiles, o rinoceronte do Central Park que, alega-se, morreu de insanidade em 1903. Cavalos loucos, como eram chamados, disparavam de repente, mesmo que presos a uma carroça ou arrastando seus cavaleiros pelo estribo, muitas vezes com conseqüências fatais. Macacos insanos mordiam as crianças em circos e os cachorros enlouqueciam com a solidão. Revendo esses casos, chega-se à conclusão de que é pouco provável que esses animais tivessem raiva. Na verdade, a dita “loucura pela raiva” era um termo genérico usado para diagnosticar diversos tipos de sofrimento emocional e outras formas de insanidade.

 

  1. TOC

Os transtornos obsessivos compulsivos são um diagnóstico comum atualmente em humanos e outros animais. Muitos desses comportamentos são atitudes naturais que saíram do controle. Pessoas, ratos e cães, por exemplo, podem desenvolver a compulsão por lavar as mãos – lamber as patas – que chegam ao extremo de impedirem-nos de brincar, comer, caminhar ou dormir. As araras e papagaios podem desenvolver a compulsão de arrancar penas a ponto de ficaram completamente peladas; assim como roedores, gatos, humanos e outros primatas podem arrancar os cabelos compulsivamente até ficarem carecas, um transtorno conhecido como tricotilomania. Existem outros comportamentos considerados TOC que podem ser observados em não-humanos, como um cachorro que fica girando toda vez que vê um carro.

 

  1. Fobias

Alguns animais, como algumas pessoas, desenvolvem medos extremos de coisas particulares em seu ambiente, como elevador, bipes de um alarme, sombras, até torradeiras. Uma das fobias mais comuns, pelo menos em cães, é o medo de trovões. Os gatos também podem desenvolver fobias, como esse gato em particular cuja família acredita que tenha medo de colheres medidoras. Os cavalos podem ter medo de sacolas plásticas e guarda-chuvas, assim como de outras coisas. Felizmente, tanto pessoas quanto animais podem aprender a superar suas fobias, com terapias comportamentais e treinamento, tempo e drogas como Valium e Xanax.

 

  1. Stress pós-traumático

Stress pós-traumático já foi observado em uma grande variedade de animais – desde grandes macacos usados em testes até elefantes resgatados de circos e cachorros veteranos de guerra. Quanto o stress pós-traumático é semelhante entre espécies diferentes? É difícil dizer, mas existem muitos sintomas em comum, como mudanças de humor e temperamento até insônia e reações de alarme frente a uma possível lembrança do evento. Em seu livro Second Nature, o etologista Jonathan Balcombe relata uma série de casos de stress pós-traumatico observados no Fauna Sanctuary em Quebec, Canadá, um refúgio para chimpanzés que foram usados em testes. Uma tarde, os tratadores carregaram um jipe com materiais diversos que passou perto do viveiro de dois chimpanzés, Tom e Pablo. Assim que eles viram o jipe, os dois começaram a berrar e não se acalmavam por nada. A equipe mais tarde percebeu que a mesma marca de veículos era usada para transportar macacos inconscientes até a sala de cirurgia no centro de pesquisas em que Tom e Pablo viviam e eram usados para experimentos dois anos antes.

 

*Laurel Braitman é autora do livro Animal Madness: How Anxious Dogs, Compulsive Parrots and Elephants in Recovery Help Us Understand Ourselves, ainda sem tradução para o português.

1 Comentário