Mesmo cansado e com doença rara, cão-guia não larga casal por nada

Há seis anos, o labrador Wyatt, 8, com amor incondicional, desbrava os sinuosos e íngremes caminhos das ruas de Jandira, na Grande São Paulo, para o casal de cegos Marcos André Leandro, 39, e Esvana Marques, 37, juntos há doze anos.

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Wyatt e seus pais humanos. Foto:Joel Silva/Folhapress

O cão também abre portas e amizades, encontra saídas, escadas, elevadores e banheiros, dá segurança e conforto aos passos dos dois.

Mas, há três meses, Wyatt não é mais o mesmo, definha aos poucos. Decorrência de uma doença raríssima que faz o cobre dos alimentos ser retido nos músculos, que se atrofiam mais a cada dia.

Agora, o bicho vive ofegante, cansado, tem dificuldades para comer e beber água, mas, mesmo combalido, apresenta-se para o trabalho. Foi treinado para servir.

Não recebe mais os arreios, que indicam que é hora de guiar os mestres, perdeu a energia que esbanjava e quase não se anima com bananas, seu petisco predileto.

Wyatt, que já foi saudado por um comandante em pleno voo para o Nordeste -“Senhores passageiros, informo que é um imenso prazer estar conduzindo pela primeira vez na minha vida um cão tão especial, um cão-guia”-, está exigindo cuidados que consomem 40% da renda dos dois funcionários públicos.

Como veio dos EUA, por meio de um convênio firmado entre uma instituição americana e a ONG brasileira Iris, o animal pode ser devolvido, mas essa ideia nem passa pela cabeça do casal.

“Não é só gratidão. É amor. Nos sentimos na obrigação de fazer tudo o que for possível por ele. Naquilo que sempre esperávamos do Wyatt, ele sempre nos atendeu prontamente. Nos resta fazer o mesmo por ele”, conta Esvana.

Tratado como “filho”, os “pais” do bicho temem que, ao entregá-lo de volta à organização, não saibam mais de seu destino.

“Como vamos ficar bem sem saber se ele ficará bem e receberá os cuidados que precisa de outras mãos? Depois que ficou doente, ele não nos abandona um minuto. Quando vou ao banheiro, ele fica na porta, levanta-se do chão mesmo com dificuldade”, afirma Marcos.

 

INTERNAÇÃO – Os primeiros sintomas da enfermidade do bicho, a hepatite crônica por cobre, surgiram em janeiro, quando Wyatt passava férias na praia com a família. Ele tinha dificuldades de respirar e quase não fazia cocô.

Em uma internação de seis dias em uma das melhores clínicas veterinárias de São Paulo, foram dezenas de procedimentos até que fosse descoberta a doença. Precisou de transfusão de sangue, respiração mecânica e medicação intensiva. A conta: R$ 12 mil.

“Gastei as economias que tínhamos juntado para uma cirurgia que seria feita em minha mulher e contraí um empréstimo consignado. A conta ficou ainda mais cara porque, como somos cegos, alugamos um carro e pagamos um motorista para agilizar o transporte do Wyatt e o nosso até a clínica”, diz Marcos.

Atualmente, o cão precisa tomar sete medicamentos. Eles servem para desde a eliminação do cobre do organismo até para diminuição das dores. Também precisa de ração especial -R$ 254 o pacote de 10 kg-, fazer exames permanentes, além de cuidados básicos como banhos e vacinas. O total de gastos mensais é de R$ 2.000.

As contas estão sendo bancadas pelo casal, mas Marcos e Esvana estão chegando no limite de suas possibilidades e abriram uma campanha na internet parar arrecadar fundos: www.vakinha.com.br (busque por “tratamento de saúde do meu cão-guia”).

Não há previsão do tempo de vida que resta ao cão, mas há chances de cura para a doença caso o tratamento seja realizado à risca.

 

Fonte: Folha de São Paulo

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