Quando amor vira doença: acumuladores de animais

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Nem sempre o que vale é a intenção. Na tentativa de ajudar os tantos animais que precisam, algumas pessoas perdem o controle, e de protetor acabam tornando-se o opressor. O Transtorno de Acúmulo de Animais é uma doença grave, extremamente lesiva para os animais, para o acumulador e a sociedade. Embora infelizmente muito comum.

 

O que é?

Acumulador de animais é aquele que mantém em casa mais animais do que tem condições de cuidar, condicionando-os, e muitas vezes a si mesmo, a uma vida de stress em ambiente superlotado e inadequado. Muitos animais também passam fome e apresentam doenças, além de serem confinados em condição insalubre.

As diretrizes determinadas pelo Hoarding of Animals Research Consortium para ajudar a identificar um acumulador são:

  • Manter uma quantidade de animais acima do normal.
  • Incapacidade em oferecer condições mínimas de nutrição, saneamento, abrigo e cuidados veterinários, o que frequentemente resulta em desnutrição, doenças e morte.
  • O indivíduo nega essa incapacidade e não enxerga o impacto negativo que a situação causa aos animais e humanos da residência.

 

Por que fazem isso?

Acumuladores não são pessoas más, são pessoas doentes! O acumulador resgata e acolhe animais, normalmente cães e gatos abandonados, com a intenção de protegê-los e ajudá-los. Ele se diz protetor e amante dos animais e pode até passar fome para tentar alimentar os bichos. O problema é que ele não percebe a realidade e não tem limites, assumindo mais resgates do que teria condições.

O acumulador é incapaz de enxergar que está causando sofrimento, vivendo em estado de constante negação da realidade. Ele realmente acredita que está ajudando e que os animais estão bem, vendo a si mesmo como salvador e protetor deles. Ele gosta de seus animais, a ponto de ter medo de doá-los, querendo todos para si e acreditando que essa é a melhor forma de protegê-los.

 

Que tipo de doença eles têm?

Eles têm uma condição psiquiátrica clínica chamada Transtorno de Acumulação de Animais, do espectro de transtornos obsessivo-compulsivos. Um acumulador pode ou não apresentar outros quadros psiquiátricos como depressão, esquizofrenia, transtornos de personalidade, paranoia, delírio, demência.

São poucas as pesquisas que investigam o transtorno de acumulação, porém é possível que ele esteja associado a problemas de relacionamento, carência e afeto, ao passo em que os animais poderiam suprir esse déficit. Acredita-se também que existe um desligamento emocional que não permite que ele enxergue a situação, ele realmente não vê o que está acontecendo, não sente o cheiro de fezes e não percebe a dor dos animais.

 

A partir de quantos animais a pessoa torna-se acumulador?

Não define-se um acumulador por causa do número de animais e sim pela condição de vida precária e cruel à qual os animais são submetidos. Nenhum animal merece viver em ambiente superlotado que vai contra sua natureza e essa é a primeira regra que alguém deve ter em mente para avaliar um caso de acumulador de animais. Uma pessoa vivendo com 20 gatos em uma fazenda, com estrutura e alimentação adequada, não é um acumulador. Porém, uma pessoa com 20 gatos em uma kitnet provavelmente é.

 

Acumuladores são sempre idosos e sozinhos?

Não! O transtorno pode desenvolver-se em qualquer idade, em homens e mulheres, apesar de ser mais comum na velhice por conta da própria degeneração da mente e isolamento social. Além disso, nem sempre o acumulador é uma pessoa só, muitas entidades ou ONGs que têm abrigos superlotados enquadram-se na descrição de um acumulador e causam as mesmas consequências extremamente lesivas para os animais.

 

Números

Acumuladores existem em todos os lugares e as ocorrências são muitas, sendo que a grande maioria sequer é oficialmente registrada. Por serem casos difíceis de resolver, com altas taxas de reincidência, tornam-se crônicos e a situação se prolonga por anos e anos, com milhares e milhares de vítimas.

Em 2015, a cidade de São Paulo tinha 493 casos registrados, segundo a Secretaria Municipal de Saúde. No mesmo ano, a PUC-RS mapeou 94 casos em Porto Alegre. Em Campinas-SP, existem 900 animais nas mãos de 60 acumuladores neste ano de 2017, segundo uma força-tarefa da prefeitura.

Não existem estatísticas nacionais no Brasil, mas nos EUA acredita-se que 250.000 animais tornem-se novas vítimas de acumuladores todos os anos.

 

Alguns exemplos / casos extremos

  • Coronel José Antonio Prado – Campinas/SP: mantinha centenas de animais em condições insalúbres e quartos escuros, além de corpos em decomposição. Leia mais aqui.
  • Maria Edi – Porto Alegre/RS: Já teve mais de 200 animais em tamanha situação de sujeira que não era mais possível ver o chão de sua casa. Passou por tratamento e os animais foram resgatados. Leia aqui.
  • Dalva Lina da Silva – São Paulo/SP: Dizia ser protetora de animais e assassinava-os com alegação de estar evitando seu sofrimento. Condenada a 12 anos de prisão. Leia aqui.
  • Helio de Freitas – Biguaçu/SC: Mantinha 48 gatos, alguns acorrentados e outros em gaiolas, além de 3 cachorros e um cemitério com 30 corpos. Dois gatos foram sacrificados pela Vigilância Sanitária e os demais resgatados e disponibilizados para adoção. Leia aqui.
  • Suposta ONG em Itapeva/SP: Homem mantinha dezenas de cães em severo estado de desnutrição, alegando ser de uma ONG de proteção. Foi multado em R$ 146 mil reais em 2016, e novamente em 2017, desta vez em R$ 285 mil. Os animais foram resgatados. Leia aqui.

 

Como identificar?

Nem todo acumulador chega a níveis extremos de ter o chão coberto por urina e fezes, corpos de animais mortos já em decomposição ou animais presos em gaiolas e caixas de transporte. Por conta da gravidade, são esses os casos que viram notícia, mas não são os únicos por aí!

Toda suspeita merece atenção, pelo bem dos animais e do próprio acumulador. Muitos casos, como o de Dalva Lina da Silva, só são identificados após investigação e diversas denúncias. E muitos outros poderiam ter causado menos vítimas se a intervenção tivesse acontecido antes.

Acumuladores são doentes e vivem fora da realidade, mas isso não quer dizer que tenham aparência de “loucos”, pelo contrário: são carismáticos, inteligentes e muito bons em esconder a situação (já que eles mesmos não a vêem).

 

Conheço um acumulador, o que fazer?

Pode ser frustrante lidar com um caso de acumulador, mas seja persistente e mantenha o foco sempre nos animais, eles precisam de ajuda e você pode ser única pessoa que conseguirá fazer a diferença para eles!

Registre um BO de maus-tratos. Algumas cidades têm delegacias de bem-estar animal, mas você pode registrar o BO de maus-tratos em qualquer delegacia. Cite a Lei de Crimes Ambientais (Art. 32, Lei Federal nº 9.605 de 12.02.1998) e a Constituição Federal de 1988 (Art. 23).

Denuncie o acumulador para outros órgãos, como o Ministério Público (MP) que é responsável por processar crimes ambientais. A Vigilância Sanitária também pode e deve intervir em casos de acumuladores. Baixe aqui uma cartilha do MP de como denunciar maus tratos aos animais.

Converse com ONGs e grupos de Proteção. ONGs normalmente sabem lidar com casos de maus-tratos e podem orientar e ajudar você com o caso, mas não espere que a ONG assuma tudo sozinha, pouquíssimas farão isso.

Divulgue o caso nas redes sociais. Esta deve ser uma opção complementar às outras, e nunca a única. Só divulgar um caso, dentre milhares que existem, pode não dar em nada e os animais continuarão sofrendo.

Converse com o acumulador. Em casos mais brandos, ou situações em que o poder público esteja demorando para agir, converse com o acumulador e ofereça ajuda. Pergunte se você pode fazer uma campanha para arrecadar ração e convença-o a permitir que você doe os animais (uma missão quase impossível, mas tente!). Lembre-se que trata-se de uma pessoa doente, que precisa de ajuda e não de incompreensão ou agressividade! Seja forte (e paciente) pelos peludos.

 

Para refletir…

amor animais liberdade

Foto: Tina Lawson; Quadrinho: Alex – A Lua de Óculos

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