Agora você é papai

Publicado originalmente no blog da ONG OBA Floripa!

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Cheio de mim, assoprei as dez velinhas com tanta força que pensei que fosse desmaiar. Apaguei-as num sopro só, mas meu orgulho não era pela idade, e sim pelo presente: depois de muito insistir, convenci meus pais a adotarem um cachorrinho.

Apesar dos animais de pêlo sedoso e porte perfeito, escolhi o mais gordinho que encontrei. Faltava-lhe uma orelha e ele era manco de uma patinha, mas para mim, por trás daqueles olhinhos brilhantes, estava a criatura mais bela de todas. Ficamos brincando de pega-pega enquanto meus pais assinavam os papeis, eu era bem mais rápido que meu novo amigo, só que às vezes disfarçava para ele poder me alcançar e ficar contente.

Meus pais e a moça do abrigo levantaram da mesa e meu coração estava aos pulos. Eu finalmente tinha um cachorrinho, meu cachorrinho! Foi nesse momento que a moça entregou-me a carteira de vacinação e me disse a frase mais marcante daquele aniversário:

– Agora você é papai, cuida bem do seu bebê.

Senti a responsabilidade pesando nas costas. Além de meu parceiro, o Guto (nome que escolhi) era meu filho, pois dependia de mim como um filho depende. Eu tinha de alimentá-lo, dar-lhe água, levar para passeios. Tinha de conferir suas vacinas, a limpeza da caminha.
Entendi naquele momento porque meus pais levaram tanto tempo para me deixar ter um cachorro.

Eu e Guto caminhávamos duas vezes por dia, de tarde jogávamos futebol no quintal de casa (quebramos ao todo três vasos da minha mãe). Nos dias frios ele se enrolava debaixo da minha coberta, nos dias quentes dormia do lado da minha cama, num colchãozinho com seu nome bordado.

Quando ele ficou doente pela primeira vez, adoeci também, de apreensão. Meu filho estava doente, oras! Nos recuperamos juntos, recebíamos a comida na cama e liam histórias para nós dormirmos, era tanto conforto que estendemos a doença por mais alguns dias.

Eu saía na rua exibindo o Guto pra todo mundo: “olhem meu cachorrinho, meu filho!”. Continuei exibindo-o mesmo quando seu pelinhos começaram a ficar brancos, mesmo quando a pata manca não era mais suficiente para aguentá-lo. Continuei exibindo-o, como um pai orgulhoso, quando ele estava cego e doente pela idade. Era meu filho, velho ou não, doente ou não. Meu filho.

Hoje, com três vira-latinhas particularmente felizes dormindo no meu pé, com o meu próprio cabelo já branco e meus próprios ossos falhando, recebo duas ligações: a primeira de minha filha, arquiteta, 48 anos; a segunda, meu filho, roteirista de cinema, 42 anos. Eles querem me desejar feliz dia dos pais. Mal sabem que fui pai muito antes de vê-los na maternidade, mal sabem que antes de amá-los, amei como amo a própria vida um cachorro gordinho manco de uma orelha só, meu primeiro filho. Aquele cuja foto ao lado de um garotinho banguela está sempre comigo, no plástico da carteira.

Para você que também é pai de um peludo de quatro patas, parabéns pelo seu dia!

Para você que não é, meus pêsames, sua felicidade não é completa… ainda.

 

Foto: Nomadic Lass

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